domingo, 15 de novembro de 2009

AS PUPILAS DE SAFO, 2

O MAR

Jamais fui capaz de compreender a imensidão do mar. Diante dele, sou toda fascinação. Sempre que o contemplo, penso na existência de Deus. Aquele azul não pode ser fruto de mãos humanas. Deixo-me envolver, de tal modo, por suas ondas, que imagino, um dia, entregando-me a elas, querendo entender os seus mistérios. Os meus amigos acham essa idéia ridícula e, temerosos, não querem que eu ande mais pela praia. Não adianta. Não consigo deixar de amar, o mar. Trancada em meu quarto, choro. O mar, então, está em mim. E transborda.

LIDIANE NUNES. Poetisa ainda inédita em livro. Mantém o blogue Imagens e Palavras e eventualmente colabora no Infiltrados.

Imagem: cena de Os incompreendidos (1959), de François Truffaut.

sábado, 14 de novembro de 2009

NASCIMENTOS

VERANICO

Depois da tempestade, vêm as crianças – que correm, brincam e pulam, olhos que são, literalmente, as últimas gotas de chuva...

Este miniconto poético está no meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes, antes inédito e agora no prelo, com previsão de lançamento para março de 2010.

O bebê aí em cima é a Maria Cecília, nascida ontem, filha de Elieser Cesar e Andréia Borges.

Para ela. Para eles.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LIVROS QUE FEREM

"Acho que deveríamos ler apenas os livros que nos ferem e apunhalam... Precisamos dos livros que nos afetam como um desastre, que nos façam sentir sorumbáticos, como a morte de alguém que amávamos mais que a nós mesmos, como ser exilado para o meio de uma floresta, longe de todos, como um suicídio. Um livro pode derreter o mar congelado que há dentro de nós."

FRANZ KAFKA (1883-1924). Escritor tcheco de expressão alemã. Autor de livros definitivos, como A metamorfose, O castelo, O processo e O médico rural.

Claro que Kafka não leu Dom Casmurro, mas ele o teria aprovado como um livro que fere...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

VÁ E VEJA, 5

A primeira noite de tranquilidade é, simplesmente, maravilhoso. Gosto muito desse tipo de filme. Mayrant, você sabe das coisas. Suas indicações, para mim, são na mosca. Aquele clima melancólico dos personagens, aquele silêncio pungente, aquele vazio existencial... eu me identifico com isso. Sem contar a fotografia perfeita, as paisagens como representantes do estado de espírito dos personagens; os diálogos excelentes, poéticos, com frases memoráveis, como "Não há nada como a falta de liberdade para proporcionar momentos de alegria". Não sei se concordo com esta frase, mas pelo menos me fez parar e refletir. Arte para mim é isso. Adorei a história de amor, nada piegas. Adorei a cena em que eles se beijam no carro e a cena em que ele a abraça deitado no colchão, depois que colocou o namorado dela e os amigos para fora da casa. O filme me arrebatou do início ao fim. Só aquela cena inicial, Dominici andando solitário, com aquele fundo musical já me conquistou. Conseguiu mexer comigo, me envolver de um modo indescritível. Na cena em que Dominici deixa Vanina no trem, sinceramente, torci para que eles ficassem juntos, mas já sabendo que isso não iria acontecer, afinal não era nenhum filme hollywoodiano, e a pergunta de Spider a Dominici me adiantou o final: "Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade?" Fiquei triste com aquele desfecho, mas enormemente feliz por ter assistido a um filme como este. Obrigada, Mayrant, por mais este presente. E preciso conhecer mais Velerio Zurlini. Não conhecia.

LIDIANE NUNES, colaboradora das não-leituras do blogue.

A primeira noite de tranquilidade. Direção: Valerio Zurlini, cineasta italiano conhecido como "o poeta da melancolia". Produção: franco-italiana. Ano e fotografia: 1972, colorido. Atores principais: Alan Delon, Sonia Petrova, Lea Massari, Alida Valli e Renato Salvatori. Disponível em DVD.

domingo, 1 de novembro de 2009

COUNTEE CULLEN

COUNTEE CULLEN (1903-1946). Poeta negro norte-americano. Graduou-se em arte pela Universidade de Nova York e depois doutorou-se em Harvard. Escreveu e publicou vários livros de poemas, com destaque para The ballad of the brown girl (1928), Color (1925) e The black Christ and other poems (1929). Também publicou um romance: One way to Heaven (1932). Era acusado pelos críticos de não reunir em seus poemas “um sentimento racial profundo, quer na expressão, quer no ritmo”, apesar da influência de Keats. Ah, críticos!

INCIDENTE EM BALTIMORE

Uma vez andando em Baltimore
Com o coração cheio, o coração cheio de alegria,
Eu vi um menino baltimoreano
Olhando fixo para mim.

Eu era pequeno, tinha oito anos
E ele era pequeno como eu,
Por isso eu sorri, mas ele pôs a língua
E disse apenas, “Negro”.

Eu vi toda a cidade de Baltimore,
Desde maio até dezembro:
Mas de todas as coisas que ali aconteceram
É só do que eu me lembro.

(Trad. de Ribeiro Couto)

UMA SENHORA, EU SEI

Ela pensa que no céu também é assim:
Que sua classe se deita tarde e ronca legal
Enquanto, às sete, se levantam os pobres negros querubins
Para fazer o coro celestial.

(Tradução livre de Mayrant Gallo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

LANGSTON HUGHES


CRUZAMENTO

O meu velho era um branco
E minha velha era preta.
Se eu maldisse o velho branco
Em praga igual eu me meta,

Se quis que a velha estivesse
No inferno ou mais além,
Me arrependo e quero agora
Que esteja passando bem.

Meu pai morreu num belo casarão
Minha mãe morreu num gueto.
Onde será que vou morrer,
Não sendo branco nem preto.

(Trad. de Jorge Wanderley)


O NEGRO

Eu sou um negro:
Escuro como a noite é escura,
Escuro como o ventre de minha África.

Eu fui um escravo:
César mandou-me limpar a soleira de suas portas.
Lustrei as botas de Washington.

Eu fui um operário:
Sob minhas mãos as Pirâmides cresceram.
Eu fiz a argamassa para o edifício Woolworth.

Eu fui um cantor:
Por todos os caminhos da África até a Geórgia
trouxe minhas canções tristes
e criei o ragtime.

Eu fui uma vítima:
Os belgas cortaram minhas mãos no Congo.
Lincham-me agora no Texas.

Eu sou um negro:
Escuro como a noite é escura.
Escuro como o ventre de minha África.

(Trad. de Domingos Carvalho da Silva)


EU TAMBÉM CANTO A AMÉRICA

Eu também canto a América.

Eu sou o irmão de cor.
Quando chegam convidados
Eles me mandam comer na cozinha,
Mas eu gozo,
Me alimento,
E fico forte.

Amanhã,
Me sentarei à mesa
Quando houver visita.
Ninguém terá coragem
De me dizer
“Vá comer na cozinha”
Então.

Além disso,
Verão como eu sou bonito
E ficarão envergonhados ―

Eu também sou América.

(Trad. de Orígenes Lessa e Oswaldino Marques, atualizada por Mayrant Gallo)


LANGSTON HUGHES (1902-1967). Talvez o mais célebre poeta negro dos EUA. Em favor do seu povo e contra o preconceito descriminatório, ele disse um dia, com sua voz pungente e branda: “Eu também sou América”. E foi com esta voz “aparentemente baixa” e auto-irônica que ele rompeu barreiras e preconceitos. Também foi contista e dramaturgo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

6. O FALSÁRIO

Culto o bastante para se exibir sem se fazer notar, mas insensato ao ponto de prescindir de alimentar relações que sabia consistentes e desinteressadas, mergulhava em livros e filmes por um motivo bem simples e nada sutil: para se afastar das pessoas.
Por traição, ressentimento ou despeito, esperava ser posto para fora de suas vidas, mais dia menos dia. E era por isso, aliás, que sempre perpetrava uma citação de efeito, a cada fala de sua autoria ou alheia: para despertar em volta, a um só tempo, ódio e inveja.
Assim, não era raro que, por este ou aquele motivo, fosse o centro das atenções, mesmo em ausência. Também o vetor das críticas, que ele próprio fazia questão de provocar, e o sangue da chacota, a correr forte e abundante.
As coisas iam assim, até que um dia uma mulher, introduzida não se sabia por quem no grupo de amigos que semanalmente se encontravam num bar do centro, sublevou-o tecnicamente e sem que precisasse lançar mão daquilo que de melhor a natureza a proveu.
Foi o suficiente para que ele agora, diante de Nicolau e Ricardo, chorasse como um menino.

MAYRANT GALLO. Miniconto do livro Nem mesmo os passarinhos tristes (inédito).

Imagem: cena do filme A lua na sarjeta (1983), de Jean-Jacques Beineix.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

VÁ E VEJA, 4

Em exibição nos cinemas, Horas de verão (L'heure d'été, França, 2008), de Olivier Assayas, bela e profunda reflexão sobre a dissolução das artes, da família, das tradições e das relações pessoais, que, pressionadas pelo mau-gosto do nosso tempo, cedem lugar às trivialidades e à valorização de uma existência pautada em critérios monetários e de êxito pessoal, no trabalho. Neste sentido, o filme promove um diálogo aberto com Assédio, de Bernardo Bertolucci, no qual um pianista, durante seu concerto para uma platéia seleta, vê sua música substituída por uma bola de futebol e o alvoroço que esta promove na sociedade. O auge de Horas de verão — e não por acaso sua cena final — se dá quando uma mocinha e seu namorado de momento pulam o muro e fogem da propriedade que pertenceu à avó da garota, reduto de pintores, bom-gosto artístico e acervo cultural, mas agora vazia, sem existência nem sentido, embora repleta de música, juventude, bebida e, obviamente, drogas. (As vontades mudam conforme o tempo, e os tempos, conforme as vontades.) Mas para onde vão aqueles dois? Que lugar procuram? Nenhum. Num mundo de padronizações e repetições, onde todos os países e todas as culturas se inspiram num único modelo, todos os lugares são o mesmo lugar. Franco, duro, lacônico e metafórico, Horas de verão só não é melhor porque não foi dirigido pelo mestre Eric Rohmer, que certamente o apreciou — se ainda está vivo e o assistiu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

UM DIA PARA LEMBRAR

Neste exato momento, na sala, tocam, meio desafinadamente, o Hino Nacional Brasileiro. É jogo do Brasil, e os baianos gritam, vibram, aplaudem. O Brasil para os brasileiros é isso: 11 camisas amarelas em campo atrás de uma bola. Compreensível. Estão se preparando, ensaiando corpo e garganta para a presepada do ano que vem, na Copa do Mundo: a luta pelo hexacampeonato.

Quem me conhece sabe que não vou ver o jogo. Há muitos anos que não torço para a Seleção Brasileira de Futebol, que a Globo assumiu e controla, que os empresários controlam e que os jornalistas fingem não controlar...

Mas não é disso que eu quero falar. Isso é muito pouco diante do que aconteceu na cidade nas últimas 48 horas e sobretudo hoje, antes deste jogo. Mas todos acham que tudo está bem: o Brasil está jogando, em 2014 a Copa será aqui, e Salvador é uma das cidades-sedes, também teremos corrida de carro todos os anos (isso é sinal de algum avanço), o Carnaval é o mesmo ópio de sempre, somos um dos últimos estados em Educação do País, e também um dos últimos em número de livros lidos por ano. Desculpem, estou exagerando: lemos mais de um livro ao ano, embora menos de dois.

Mas o que aconteceu hoje, eu ainda não disse... É porque é difícil. Mas vamos lá, em outros lugares isso já é comum, e aqui também será, é só questão de tempo: a violência e a ignorância não escolhem geografia nem clima. Estão, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em todos os lugares.

O que houve foi que, à tarde, na Estação da Lapa, um rapaz de 18 anos foi morto a tiros, não se sabe por quem nem por quê, numa cena bem cinematográfica, iluminada, limpa, em cenário coletivo (uma estação de ônibus) e em plena jornada de trabalho...

Não muito longe dali, na Av. Vasco da Gama, mais um ônibus era incendiado por traficantes de drogas, em protesto contra a ida de seu chefinho, sem o qual eles não podem viver, para um presídio de segurança máxima no Mato Grosso: agora prisão virou sala de controle do tráfico, só falta instalar tevê, ar condicionado, cozinha, quarto com suíte e piscina...

E eu, um pouco mais tarde, numa livraria, era chamado por um desconhecido (durante a conversa particular que eu travava com um amigo sobre o desempenho dos times no Campeonato Nacional), de racista, sim, racista, simplesmente porque torço para o Fluminense Football Club, do RJ, cujos jogadores, negros, nos primórdios do futebol, tingiam a pele com pó-de-arroz para ficarem brancos e fugirem aos insultos da torcida. Por isso eu sou racista. Só por isso. Eu, que nasci em 1962, no auge da Era Pelé. Mas foi o que ele disse: "Todos os tricolores são racistas! Todos!"

Ao fim, voltando para casa, me perguntei o que aquele sujeito estava fazendo numa livraria. Ora, os livros podem oferecer muitas coisas (informação, conhecimento) e promover outras (destreza de pensamento, desenvoltura da fala e uma certa melhora no nível do raciocínio), menos capacidade de compreensão, inteligência e sensibilidade. E é só por isso que não culpo pela alcunha que me deram, que creio imerecida, a péssima Educação Formal oferecida ao povo deste Estado, nem o fato de que lemos tanto quanto visitamos as estrelas. Os livros, e consequentemente a Educação, só podem até o limite do homem. E os limites, como os indivíduos, são muitos e vários.

Ops! Ia esquecendo. Vai tudo muito bem: o Brasil está ganhando. Até quando?

sábado, 5 de setembro de 2009

HISTÓRIA DE AMOR

O ovo de ouro, de Tim Krabbé, é um dos mais impressionantes e perfeitos romances policiais já escritos, e ainda mais porque vem de uma literatura pouca afeita ao gênero: a literatura holandesa. O argumento é simples: Rex e Saskia, de férias, estão na estrada. O destino do casal, uma casinha numa colina acima do Mediterrâneo. Dias livres, sol, só eles dois, paz, aconchego, initimidade. Quando param num posto de gasolina, Saskia desaparece. Nós, leitores, sabemos que ela foi sequestrada pelo terceiro personagem da história, um professor, mas Rex não. Daí por diante, por meses e anos a fio, através de campanhas na tevê e nos jornais, ele busca saber o paradeiro da namorada. Apela ao criminoso, roga que ele apareça, ao menos para lhe revelar o que aconteceu com Saskia. Até que um dia o criminoso o procura... O resto da trama, o seu desfecho propriamente dito, se revelado aqui, embora não chegasse a tirar o brilho e a força desta história, poderia fazer alguns leitores perder o interesse pela leitura. O certo é que ninguém jamais sairá ileso deste livro, que foi filmado na Holanda em 1991, ganhando vários prêmios internacionais, e depois, em 1993, nos EUA, com o final alterado, o que acabou por diluir o efeito aterrorizante, e metafórico, da história original. Nas duas versões, o título no Brasil foi O silêncio do lago. Um livro que jamais será esquecido por ninguém, mesmo porque conta, através de um sequestro, uma dolorosa história de amor, e as histórias de amor são inesquecíveis. O autor, Tim Krabbé, é jornalista, escritor e jogador de xadrez.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

NA ACADEMIA


Clique no cartaz para ampliá-lo e ter acesso às informações.

sábado, 29 de agosto de 2009

A OUTRA "AMY FOSTER"

A outra edição de Amy Foster no Brasil é esta, inclusa no volume Tufão e outras histórias (Typhoon and outher stories), que reúne, além de Amy Foster, os contos Tufão e Amanhã. Nascido na Polônia em 1857, com o nome Józef Teodor Konrad Naleck Korzaeniowski, Conrad acabou por se tornar um dos maiores prosadores de língua inglesa e um autor cultuado sobretudo pelos escritores. Tinha uma predileção por personagens solitários e amargurados, anti-heróis que, como ele, Conrad, tinham que lutar por seu lugar no mundo. Com seu estilo descritivo e inigualável, dado a incursões psicológicas e nuances de primitivismo, articulou romances ora densos ora movimentados que influenciaram inúmeros romancistas do século XX, na Inglaterra e no mundo, entre os quais Faulkner, O'Hara e Lowry.

ETNOCENTRISMO

Um náufrago chega às praias de Colebrook, na costa da Inglaterra. Como não fala sequer uma palavra em inglês, pois nasceu num inominado país do Leste europeu, de onde partiu em busca de uma vida melhor na América, é considerado um maluco e recolhido ao depósito de madeira do Sr. Smith, cuja mulher, só de ver o estranho, ficou histérica. Mais tarde, já relativamente adaptado ao lugar, e namorando Amy Foster, o homem tenta levar uma vida normal, mas é impossível: não fala inglês, que não consegue aprender, canta nas tabernas músicas que ninguém conhece, dança de maneira insólita (batendo os tornozelos, estalando os dedos, acocorando-se e esticando uma das pernas), e, por isso, "foi posto para fora com violência; ganhou um olho preto". Quando bem mais tarde, já casado com Amy (outra estranha, e não é por outro motivo que eles se casam, embora ela fale inglês, seja do lugar) e pai de um filho, ele fica deprimido e melancólico a ponto de adoecer, acham que ele está maquinando algo, que sua loucura chegou a outro estágio, talvez mais perigoso... Metáfora (ou alegoria) da incapacidade de se lidar com as diferenças, com o outro, este é um dos melhores e mais incisivos contos longos de Joseph Conrad (1857-1924) sobre o etnocentrismo: "Ah, ele era diferente: um coração inocente e cheio de uma boa vontade que ninguém queria, esse náufrago, que, igual a um homem transplantado para outro planeta, estava separado de seu passado por um espaço imenso, e de seu futuro, por uma imensa ignorância. Sua fala rápida, vigorosa, positivamente chocava todo mundo. 'Um demônio nervoso', era como o qualificavam". Nesta edição de 2007, pela Revan (RJ), afirma-se na orelha que esta obra de Conrad era até então inédita no Brasil. Não era. Foi publicada antes, em 1985, pela insigne L&PM, do RS, no volume original intitulado Tufão e outras histórias, em tradução de Albino Poli Jr. Amy Foster é um grande texto de Conrad, que chega a pelo menos duas traduções de qualidade no Brasil e que deve ser lido por todas as pessoas, afinal de contas, quando não somos os outros, somos os mesmos, ou vice-versa. E vale lembrar que, quando perguntaram ao francês Paul Claudel que obras de Conrad deveriam ser lidas, ele respondeu, sem hesitar: "Todas!" Ênfase que, nas palavras de André Gide, atinge o paroxismo: "Entre meus maiores, eu não amava nem reconhecia ninguém mais do que ele".

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O GIBI JUBIABÁ

Amanhã, a convite da Fundação Pedro Calmon, para o seminário A atualidade de Jorge Amado, estará entre nós, na LDM Livraria Multicampi, às 17 horas, o cartunista paulista Spacca, autor da recente adaptação de Jubiabá para os quadrinhos.
Particularmente, não sou do tipo que espera encontrar fidelidade num filme extraído de um texto literário. São linguagens distintas, que demandam escolhas ora funcionais ora artísticas, sem contar as dificuldades que há em transpor para a “imagem visível” uma cena que no romance ou no conto é apenas sugerida pela força ou pelo sentido das palavras.
Com as histórias em quadrinhos não é diferente. Spacca teve que eleger sequências importantes e abdicar de outras. Deixou de lado uma das passagens mais bonitas do romance de Jorge Amado ― o capítulo “Vagão”, que pode ser lido como um conto ― em favor de uma narrativa mais fluida e acelerada, de uma representação mais pitoresca da realidade expressa no romance e também da personalidade de Balduíno, que mistura austeridade e arrogância. “Vagão” se insere num ponto de interlúdio da narrativa, quando Baldo, após agredir um peão da fazenda de fumo, escapa pelos matos e toma um trem para Feira de Santana. O ambiente sombrio e opressivo do interior do vagão contamina os personagens e os impõe a refletir sobre suas vidas e sobre a existência de um modo geral, num tom quase de adágio, que contrasta com o resto do romance, mais febril e colorido.
O próprio Spacca admitiu o ritmo lento e destoante deste trecho, optando por sua supressão. Ou seja, o que no romance Jubiabá é natural ― afinal de contas estamos diante de um gênero que se notabilizou mais pelo seu caráter informe que propriamente pela exatidão, e que se permite qualquer arrojo formal ―, no gibi torna-se um excesso, uma matéria sem grande utilidade e que, para o bem da trama, precisa ser polida. Isso é uma evidência de que as histórias em quadrinhos estão mais próximas do cinema que da literatura e que adaptar um romance para os quadrinhos se assemelha muito a transportá-lo para a luminosidade embriagante da tela.
Este é, aliás, um dos grandes trunfos do gibi Jubiabá. É puro cinema, sem deixar de ser uma ótima adaptação de um dos grandes romances brasileiros do século XX. Não tenta ser literário e acaba por conservar, paradoxalmente, a dicção do romance, preservando muito do estilo do autor e, em especial, o tom picaresco da fala dos personagens: “Dê seu jeito”, diz Baldo quando Osório, noivo de Maria dos Reis, os surpreende juntos ― fala e corpo conjugados magistralmente (p. 35). E então sabemos, de antemão, que a pose de Baldo não é bravata, é força mesmo, coragem do autêntico boxeador que ele será.
Posso estar enganado, mas acredito que esta adaptação de Jubiabá vai formar e motivar muitos leitores jovens: de quadrinhos, cinema e literatura. Estamos precisando.

domingo, 23 de agosto de 2009

FUGIR

Uma trama que é só um pretexto para uma aventura, e uma revelação. O mais recente romance do belga Jean-Pierre Toussaint elege a narrativa oriental como tom e faz da linguagem um meio para captar cores, formas, odores, sensações, espaços, épocas, objetos, atmosferas perdidas ou que vão se perder. Ao fim, descobrimos que tudo, da primeira à última palavra, do gesto mais brusco ao olhar mais sutil, forma uma aventura que vai obrigar o protagonista a tomar uma decisão, responder à pergunta: "Será que eu acabaria tudo com Marie?" Ora, ele já respondeu que sim, na segunda linha do romance: "No verão anterior à nossa 'separação', tinha passado algumas semanas em Xangai (...)". Só não sabemos como. O romance é este 'como', e passa por Xangai, Pequim e pela ilha de Elba, onde tudo se decide, em braçadas marinhas de desespero, pavor, amor e amizade. Um périplo no qual a história pouco importa. O fluxo da vida não permite organização com começo, meio e fim precisos. Apenas experiências, que ora faltam ora sobram, e com as quais, se a vida não é clara, benéfica, ao menos torna-se suportável.